Navarātri - Śrī Durgā e Śrī Mahākālī - Parte 2

Updated: Aug 28, 2019

Śrī Durgā

चण्डीपाठः

Caṇḍīpāṭhaḥ, aquela que dilacera pensamentos




Śrī Durgā

Sobre a aparição primordial de Devī com atributos, destaca-se Śrī Durgā (“inacessível, invencível”), uma vez que a mesma é inicialmente identificada sozinha, e não como consorte de algum outro deus, com papel secundário.


Trata-se do retrato de um desejo de emancipação na vida social feminina da sociedade, processo que ocorre dentro dos cultos e das práticas místicas (principalmente tântricas).


Śrī Durgā tem suas origens nos śabaras, uma sociedade não-letrada de agricultores, oriunda de uma área montanhosa no centro da Índia conhecida como Vindhyaśaila, em uma região limiar entre dois reinos, que criava um impedimento de identificação deste povo com outras culturas.


Com a chegada do processo purāṇico de integração à região, Śrī Durgā foi identificada como uma representação de Śakti (potência, força, energia Divina). Tal sincretismo permite que o śabaras se identifiquem com a cultura sânscrita e, em contrapartida, firma a cultura sânscrita como provedora da teologia.


Conforme narrado no Devī Māhātmya, ela é invocada primeiramente sob sua forma universal, Śakti, com o papel central do mito de criação do universo.


Assim, o texto começa narrando a história de um rei que perdeu seus poderes para inimigos e fora abandonado por sua família.


Este, eventualmente encontra-se com um brāḥmaṇa, que o questiona, pois mesmo desamparado por todos, filhos, família, funcionários, ainda encontrava-se apegado aos mesmos.


O sacerdote indica que este apego à família é simplesmente fruto do apego ao desejo de retribuição. Assim é, pois dentro do contexto da renúncia, a família é tão passageira como qualquer outra coisa.


Então, prossegue inferindo que o rei kṣatriya passa por um processo de ilusão, que é presidido por Mahāmāyā, aquela pelo qual tudo se origina, que atrai as mentes para a ilusão e que também conduz à libertação. É a “soberana do soberano do Universo”.


Ela, através de seu poder entorpecente (tamas), é o que induz Śrī Mahāviṣṇu a dormir sobre as águas de Kāraṇārṇava, o oceano causal (plano que transcende a manifestação material, a realidade última das tradições vaiṣṇavas), processo que precede a emanação do universo material. Porém, Śrī Śakti é também a yoganidrā de Śrī Viṣṇu: o mesmo poder que o adormece é aquele com a capacidade de acordá-lo, para sustentar o universo material.


Então, o brāḥmaṇa relata o episódio referente à invocação da Deusa por Śrī Brahmā (que reside no lótus que brota do umbigo de Kāraṇodakaśāyī Viṣṇu), quando este se vê em apuros face a dois demônios – Madhu (“mel”), que representa o que é doce e gera apego à vida material, e Kaiṭabha (“espinho”), que representa a dor e aversão, que também enredam a alma no saṃsāra (ciclo de nascimentos e mortes).


Os demônios surgem dos ouvidos de Śrī Viṣṇu, enquanto este repousa em Śeṣanāga, a grande serpente, antes mesmo da criação do universo. A partir de lindas oblações, Śrī Brahmā clama à Śrī Ādiśakti (o poder supremo), como a soberana do Universo, para que desperte Śrī Bhagavan (“o venerável”) salvando-o da desgraça, para manifestar o Universo.


Conforme descrito no Devī Māhātmya, versos 54-60, traduzidos pelo Professor João C. B. Gonçalves.


“Tu és Svāhā! Tu és a oblação! Tu és a exclamação Vaṣat! És a essência da linguagem! Tu és o néctar! Tu estás nos três tempos da sílaba eterna!|54| Mesmo eterna, tu estás no meio tempo, que soa indistintamente. Tu és a própria Sāvitrī, tu és a suprema deusa mãe| Por ti tudo isto se sustenta.


Por ti este mundo é criado. Por ti é protegido, ó Deusa, e no final é sempre destruído!|56| Com a forma criadora na origem, com a forma sustentadora na proteção, e com a forma destruidora no final deste mundo, ó mayā do mundo!|57|


A grande sabedoria, a mahāmāyā, a grande inteligência, a grande memória, a grande inconsciência, tu és a Grande Deusa, a grande soberana148!|58| Tu és a prakṛti, e tens o poder total sobre os três guṇa. Tu és a noite dos tempos, tu és a grande noite, és a violenta noite da inconsciência!|59| Tu és Śrī, Īśvarī, tu és a modéstia, tu és a consciência caracterizada pela cognição. Tu és a vergonha, tu és a opulência, assim como a alegria, a tranquilidade e a paciência! |60|”


É através deste profundo clamor que a Deusa é colocada como superior à Trimurti (trindade Brahmā-Viṣṇu-Śiva), embasando a tradição Śakta, que coloca Śakti (a Deusa) como a figura central do panteão hindu.


Ela então se manifesta, acordando Śrī Jagannātha (“o Senhor do Universo”, um dos muitos nomes de Śrī Viṣṇu). Este, luta por cinco mil anos com os demônios, enquanto Śrī Mahāmāyā os entorpecia em ilusão. Ludibriados, os demônios se colocam numa falsa posição divina, superior à própria consciência absoluta ali representada por Aquele que tudo permeia (Śrī Viṣṇu) e perguntam-no qual benção Ele deseja. O mesmo responde que sua dádiva é a morte de ambos através de sua providência, finalmente aniquilando-os.


Mais adiante, ainda no Devī Māhātmya, Śrī Devī manifesta-se para combater um novo desequilíbrio dhármico, provocado por Mahiṣāsura, o demônio-búfalo que representa o egoísmo e a ignorância, que derrotou o rei dos devas, o Senhor Indra, e usurpou o controle do plano celestial.


Assim, o Śrī Indra e os demais devas recorreram aos senhores supremos do Universo, a Trimurti, que prontamente invocam Ādi Paraśakti, a Suprema Devī, sob a forma de Śrī Durgā – que recebe então não somente as armas da trindade suprema, como também as aparelhas de Indra, Agni, Varuṇa, Sūrya e Yama e dos demais Devas – deuses do céu, fogo, água, sol e morte, respectivamente. Por fim, é presenteada com um leão por Himavat – a personificação dos Himālayas. Assim, Śrī Durgā desce à Terra e derrota Mahiṣāsura e seu exército após sangrenta batalha.


Subsequentemente, Śrī Durgā é invocada a partir de Śrī Pārvatī (consorte de Śrī Śiva), novamente para enfrentar os asuras (demônios) Śumbha e Niśumbha, que representam, respectivamente, a vaidade e a autodepreciação, e que, devido à prática de severas austeridades, também haviam alcançado grandes poderes, concedidos por Śrī Brahmā.

Devido à sua Suprema beleza de Devī, Śumbha e Niśumbha tentaram conquistá-La.


Porém, foram advertidos pela Mesma que Ela só se entregaria a quem pudesse vencê-La em batalha. Os irmãos, tão poderosos, não acreditaram que uma mulher poderia se impor desta maneira e enviaram um exército para trazê-la à força. Sob sua forma colérica, Śrī Caṇḍī, aniquilou a todos pela entoação do bīja (semente mântrica) “ हुं ” (huṃ) e por seu leão.


Enfurecidos, os supremos asuras enviaram dois de seus generais, Cānda e Muṇḍa, que personificam a paixão e a ira, respectivamente. Quando chegaram para enfrentar Śrī Caṇḍī, Esta se enfureceu, proporcionando a manifestação de Śrī Kālī, conforme descrito no Devī Māhātmya:


"Das sobrancelhas de sua testa brotou imediatamente Kālī, com sua face assustadora, carregando espada e laço. Ela portava um estranho bastão coroado por um crânio e tinha uma guirlanda de cabeças humanas, estava envolta em uma pele de tigre, e parecia horrorosa com sua pele macilenta, sua boca escancarada, aterrorizando com sua língua para fora, com olhos afundados e vermelhos, e uma boca que enchia os quatro cantos com rugidos."


Com grande violência e sem qualquer dificuldade, Śrī Kālī decapita Cānda e Muṇḍa, que lhe dá o título de Cāmuṇḍā, elevando-a ao nível de uma mātṛkā (Divina Mãe).

Enfurecidos, Śumbha e Niśumbha decidem por enviar seus serviçais mais poderosos, incluindo o demônio Raktabīja – cujo nome significa “semente de sangue” – , famoso asura que tinha o poder de multiplicar-se para cada gota de sangue sua que tocasse o solo. Para derrota-lo, Śrī Kālī bebe o sangue das feridas abertas antes que este chegasse ao chão.


Neste momento, os Deuses que assistiam à batalha enviam suas śaktis personificadas (potências femininas), as aṣṭamātṛkās (oito deusas-mãe):


· Brāhmaṇī (Śrī Brahmā);

· Māheśvarī (Śrī Māheśvara, um dos nomes do Senhor Śiva);

· Ambikā (ou Kaumārī, śakti de Śrī Kārtikeya, deus da guerra);

· Vaiṣṇavī (Śrī Viṣṇu);

· Indrāṇī (Indra);

· Vārāhī (o javali, Śrī Varāha, terceiro avatāra de Śrī Viṣṇu);

· Cāmuṇḍā (Śrī Kālī, conforme exposta acima, que já se encontrava no campo de batalha);

· Nṛsiṃhī (Śrī Nṛsiṃha).


Finalmente, Śumbha e Niśumbha decidem enfrentar pessoalmente a situação e partem para a batalha.


São aniquilados por Śrī Caṇḍī e o Dharma é restaurado no cosmos.

Assim, Śrī Durgā é um conjunto supremo de qualidades, cujos atributos vêm de diferentes Devas. Eles são partes, Ela é inteira. Assim, não é filha de um deva em específico, mas filha de todos.


É ayonija, não-nascida do ventre, sem mãe. Isso a estabelece como Mahādevī, a Deusa dos deuses. É, assim como o Senhor Śiva e o Senhor Viṣṇu, svayambhū (auto-existente).



Yuri D. Wolf foi durante muito tempo, dirigente do Templo Polimata de Campinas, juntamente com Aline Wolf, e também, comandante da Cadeira de Hinduísmo.

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