Navarātri - Śrī Durgā e Śrī Mahākālī - Parte 3

Śrī Kālī.

कृष्णमातृ

Kṛṣṇamātṛ, a mãe escura



Śrī Kālī

Já o "conceito de Kālī" é mais antigo do que o nome e a figura que conhecemos atualmente. Na região do vale do já extinto rio Sarasvatī, há registros de um conceito de conflito da dualidade entre o selvagem e o domado há mais de 4.000 anos.


Nos textos védicos, enxergamos referências de Śrī Kālī em Nirṛti – "aquela que destrói ṛti”, os ritmos usuais da natureza. É a ancestral deusa escura como carvão e descabelada que personifica o desconforto da humanidade diante da face obscura da Natureza.


Ligada à direção do sul, menos auspiciosa, tradicionalmente identificada com Yama, deus da morte, é indicada como uma das versões “primitivas” de Śrī Kālī, que possui uma representação registrada posteriormente como Dakṣiṇakālī (que pode ser livremente traduzido como “a que vem do sul”).


Referências sobre Sua origem também foram registradas nas Upaniṣads e relacionam-Na uma das sete línguas de Śrī Agni, deus do fogo, que atua nos campos de cremação.


O Liṅga e o Skanda Purāṇas relatam o episódio em que Śrī Śiva pede pela intervenção de Śrī Pārvatī para matar um demônio, Daruka, que só poderia ser derrotado por uma mulher.


Assim, Ela entra no corpo do Senhor Mahādeva, ingerindo um veneno que repousava em sua garganta e transforma-se em Bhadrakālī (literalmente, “Boa Kālī”). Após sua vitória, ainda intoxicada com o veneno e todo o sangue consumido, a Senhora da Escuridão teve de ser acalmada por seu Companheiro, que se coloca sob seus pés, conforme conhecida iconografia.


No śaktismo tântrico, é Ādimahāvidyā, a deidade presidente de um grupo de dez deusas, expansões de sua Natureza Última, e que representam diferentes aspectos da sabedoria divina, Daśamahāvidyā (algo como “as dez faces do grande conhecimento”):

· Kālī: O Brahman Supremo, nirguṇa (que transcende qualidades e formas), o implacável tempo, que tudo devora;


· Tārā: aquela que guia através das dificuldades;

· Tripura Sundarī: a amável senhora dos três mundos;

· Bhuvaneśvarī: a mãe suprema cujo corpo é o próprio Cosmos;

· Chhinnamastā: a deusa que se auto-decapita (que alimenta e elimina o ego);

· Bhairavī: a deusa feroz das muitas formas;

· Dhūmāvatī: a viúva inauspiciosa, a pobreza personificada;

· Bagalamukī: paralisadora de inimigos, que detém o poder da palavra;

· Mātaṅgī: aquela que não possui casta, acessível aos “sujos”;

· Kamalā: a auspiciosa deusa do lótus – Śrī Lakṣmī.


Todavia, o mistério de Śrī Kālī simultaneamente transcende e envolve todas as diferentes visões sobre sua origem.


No macrocosmos, Mahākālī é a potência feminina do tempo (kāla), que move o universo manifesto e tudo devora, e que ensina ao sādhaka(caminhante espiritual) que é somente o medo da morte o que o faz mortal. No microcosmos do corpo humano, é kuṇḍalinī śakti, a essência do alento prāṇico que dá vida à matéria, e que conecta o sādhaka à sua verdadeira natureza transcendental.


Como Dakṣiṇakālī, controla a maré de destruição que varre toda a existência, em um ato de puro discernimento divino, e que prepara o terreno para a toda a auspiciosidade trazida pela benevolente Bhadrakālī, aquela que destrói para criar através do Amor Divino, sobre o cadáver (śava) de Śrī Śiva.


A Escura Mãe (“Dark Mother”, como é popularmente conhecida em inglês) é a eterna energia da evolução, cujas ações gradualmente manifestam as possibilidades divinas. Demonstra que as sucessivas mortes são o caminho para a imortalidade, e que sua escuridão é o momento que precede a aurora.

No macrocosmos, Mahākālī é a potência feminina do tempo (kāla)


Implacável e destemida, é Cāmuṇḍā, a guerreira invencível, a noite personificada. Sua nudez reflete a própria Natureza em sua essência primordial, livre de qualquer ilusão e apego. É a dissolução da dualidade entre a mais elevada forma de luz, personificando o verdadeiro Dharma, e a mais absoluta escuridão, de onde tudo emana e onde tudo se dissolve.


As cinquenta e duas cabeças em sua guirlanda representam as letras do alfabeto sânscrito, simbolizando sua sabedoria e onipotência, que reside em sua identificação mútua como Parāśakti, a mais elevada potência criativa divina, que manifesta o universo em sua totalidade, e Parāvāk, a mais elevada palavra divina, fonte de toda a linguagem universal.


Seu cinto de braços humanos decepados é o símbolo da ação do karman, pois é ela quem abençoa seus devotos cortando-os do ciclo de nascimentos e mortes. A espada ensanguentada é a força da Compreensão Divina que corta a ignorância (o ego humano distorcido), representada pela cabeça decepada. As mudrās emanam seus principais atributos, varada (a benevolência) e abhaya (o destemor).


A morada de Śrī Kālī é śmāsana (o campo de cremação), onde ela dança e a manifestação se dissolve. Lá também são dissipados os medos e apegos, a ira, a luxúria, os mais profundos sentimentos que enredam a alma aos grilhões da avidyā (“o conhecimento espiritual equivocado”). Śmāsana está no coração de seu devoto, que lá queima suas limitações e sua ignorância, sob a outorga da Grande Mãe Divina.


Ela se põe sobre o corpo de seu consorte pois sua refulgência coloca-o como o potencial passivo da criação. Śrī Kālikā é ninguém menos do que Śakti, a universal força feminina criadora, ativa. É a letra “i” no nome de Śrī Śiva, o que o diferencia de śava, um corpo sem vida.


Assim, o processo devocional polimata em honra à Śrī Durgā e Śrī Mahākālī reflete a dissolução das dualidades – pois ensinam que a mesma força que destrói e ilude é a potência que constrói e liberta – e a destruição de nossas tendências negativas, onde o triunfo sobre a mente representa a vitória das manifestações divinas face aos demônios da ignorância.


Invocações mântricas para o ritual


श्रीदुर्गा

śrī durgā


गायत्री   gāyatrī (métrica de 24 sílabas, usualmente utilizada na invocação das Deidades)


कत्यायिन्यै विद्महे

कान्यकुमार्यै धीमहि ।

तन्नो दुर्गा प्रचोदयात् ॥


oṃ katyāyinyai vidmahe

kānyakumāryai dhīmahi

tanno durgā pracodayāt


“Contemplamos Aquela que é filha da perfeição,

Meditamos na Menina Pura.

Reverenciamo-nos à Inaccessível, para que nos ilumine com sabedoria.”


बीजमन्त्र bījamantra (contém a sílaba mística raiz da Deidade – para ser repetido 108 vezes na contagem da japamālā)


दुं दुर्गायै नमः

oṃ duṃ durgāyai namaḥ

Reverencio-me à Inacessível, à Invencível.


श्रीमहाकाली

śrī mahākālī


गायत्री   gāyatrī


ॐ कालिकायै विद्महे

श्मशानवासिन्यै धीमहि । तन्नो काली प्रचोदयात् ॥


oṃ mahā-kālyai ca vidmahe

śmaśāna-vāsinyai ca dhīmahi

tanno kālī pracodayāt


“Contemplamos Aquela que é o tempo e a escuridão

Meditamos n’Aquela que reside nos crematórios

Reverenciamo-nos Àquela que possui cor escura / que devora tudo como o tempo, para que nos ilumine com sabedoria.”


दक्षिणकालिका बीजमन्त्र

dakṣiṇakālikā bījamantra


ॐ क्रीं क्रीं क्रीं हूं हूं ह्रीं ह्रीं दक्षिणे कालिके ।

क्रीं क्रीं क्रीं हूं हूं ह्रीं ह्रीं स्वाहा ॥


oṃ krīṃ krīṃ krīm hūṃ hūṃ hrīm hrīm dakṣiṇē kālike

krīṃ krīṃ krīṃ hūṃ hūṃ hrīṃ hrīṃ svāhā


“Aquela que move o corpo sutil à Infinita Perfeição e além, corte-me o ego!

Ofereço minhas oblações à Mãe que dissolve a escuridão através da Potência Divina, que move o corpo sutil à Infinita Perfeição e além, corte-me o ego!”



Yuri D. Wolf foi durante muito tempo, dirigente do Templo Polimata de Campinas, juntamente com Aline Wolf, e também, comandante da Cadeira de Hinduísmo.

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